Rita Serrano
No final de junho de 2022, o então presidente da Caixa, Pedro Guimarães, renunciou em meio a denúncias de assédio sexual contra empregadas. Quatro anos depois, seguimos aguardando que a justiça julgue o caso. A figura de Guimarães e sua gestão sintetizaram o período Bolsonaro: truculência, desrespeito às pessoas, privatizações, desmonte do Estado, dos programas sociais e das políticas públicas de habitação, educação e saúde.
Na Caixa, operações foram privatizadas, a área de tecnologia sucateada e os direitos dos empregados e empregadas colocados em xeque. Afinal, o papel do banco como principal agente das políticas públicas sempre reflete a visão que o governo tem sobre o Estado e sua função na economia. Naquele período, eu atuava como conselheira de administração eleita pelos empregados e coordenava o Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas. Estava, portanto, na linha de frente da luta por uma Caixa pública e pela democracia.
A resistência só foi possível porque conseguimos unificar, sob essas bandeiras, todas as entidades de representação do corpo funcional da Caixa. Essa unidade foi decisiva para nossa vitória, e reconhecida com a indicação do presidente Lula para que eu assumisse a presidência da Caixa, um gesto que simbolizou o esforço coletivo das entidades e empregados.
Os dez meses em que estive à frente do banco, comprometida com sua reconstrução, revelaram não apenas as dificuldades do governo Lula em conter o fisiologismo e conquistar maioria no Congresso. Mostraram também que nosso movimento estava desunido, disputando hegemonias internas, quando o verdadeiro desafio era construir uma maioria social capaz de sustentar as mudanças necessárias.
Infelizmente, o arranjo vitorioso de unidade que nos fortaleceu no período Bolsonaro se desfez. Alguns perderam o foco, romperam acordos e mergulharam em disputas internas, como se o debate na sociedade já estivesse resolvido. As consequências imediatas foram as divisões em torno das eleições para a Funcef, a representação dos empregados e empregadas no Conselho de Administração e no Conselho de Usuários do Saúde Caixa. Passado esse período conturbado, é urgente resgatar de forma unitária o debate sobre o país que queremos e o papel da Caixa no próximo ciclo.
Defender os direitos dos trabalhadores da Caixa e do povo brasileiro é defender um Brasil mais justo e humano.
Por isso, mais do que revisitar o passado, precisamos compreender o tamanho da responsabilidade colocada diante de nós nos próximos anos. A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral comum. Estará em jogo novamente o projeto de Estado, de sociedade e de país que queremos construir. A experiência recente mostrou o que acontece quando a extrema direita chega ao poder.
Se queremos uma Caixa forte, pública, social e comprometida com o povo brasileiro, será indispensável reconstruir a unidade, superar disputas menores e reencontrar o sentido coletivo da nossa luta. Os inimigos ainda estão aqui. Mas também continua viva a capacidade de resistência, mobilização e reconstrução daqueles que acreditam em um Brasil mais justo, humano e democrático.
Presidenta do DIAP. Ex-presidenta da Caixa e do Sindicato dos Bancários do ABC. Palestrante e autora do livro “Caixa, banco dos brasileiros”.