c16892c4 3ed9 4134 91aa bac4fbe8be60Rita Serrano

No próximo dia 12 de janeiro, a Caixa completa 165 anos de história. São quase dois séculos de presença cotidiana na vida do povo brasileiro — nas políticas públicas, no financiamento da moradia, na poupança popular, nos programas sociais, nas loterias, no crédito e no atendimento em cada canto do país.

Celebrar a Caixa é reconhecer seu papel como instituição estruturante do Estado brasileiro. Um banco público que ajudou a sustentar políticas de desenvolvimento, reduzir desigualdades e garantir segurança financeira a milhões de famílias. Em um país marcado por crises recorrentes, a solidez da Caixa sempre foi sinônimo de confiança.

Mas comemorar seus 165 anos exige mais do que olhar para o passado. Exige coragem para enfrentar o presente e responsabilidade para discutir o futuro.

A Caixa opera hoje em um sistema financeiro profundamente transformado. A digitalização acelerada, o avanço das fintechs e a competição com bancos privados exigem investimentos contínuos em pessoas, tecnologia, inovação e segurança operacional. Os problemas tecnológicos vivenciados recentemente, como o sorteio da Mega-Sena, não refletem incapacidade dos empregados — ao contrário, evidenciam a dedicação de equipes que muitas vezes trabalham no limite para manter o banco funcionando. Esses episódios expõem fragilidades estruturais decorrentes da insuficiência de investimentos estratégicos em tecnologia e infraestrutura digital.

Superar esse gargalo é condição essencial para preservar a relevância da Caixa no presente e no futuro.

Com o distanciamento do tempo, torna-se cada vez mais evidente que a aposta na migração de operações para subsidiárias não entregou os resultados prometidos. A experiência recente nas áreas de loterias, cartões e fundos de investimentos mostrou que a fragmentação institucional não aumentou a competitividade, não fortaleceu o banco e tampouco gerou ganhos relevantes de eficiência.

Ao contrário, a dispersão de estruturas e a perda de sinergias internas enfraqueceram a atuação integrada da Caixa. Esse modelo precisa ser revisto com seriedade, transparência e foco no interesse público — não como tabu ideológico ou jogo de interesses alheios ao banco, mas como avaliação concreta de resultados.

A história recente do sistema financeiro brasileiro mostrou como instituições podem rapidamente se tornar epicentros de crises quando não há governança, controle social e compromisso público. O episódio envolvendo o Banco Master é um alerta claro. No caso da Caixa, a mobilização dos empregados da subsidiária Caixa Asset foi fundamental para proteger a instituição de riscos que poderiam ter efeitos sistêmicos. Isso demonstra que blindar a Caixa não é um capricho corporativo, mas uma necessidade para a estabilidade do mercado financeiro e para a proteção da poupança popular.

Instituições centenárias como a Caixa oferecem algo que o mercado, sozinho, não garante: confiança de longo prazo e a certeza de que os recursos das famílias brasileiras estão protegidos, mesmo em cenários de turbulência.

Um ano decisivo para o projeto de Caixa que o Brasil precisa

O ano de 2026 será atípico e decisivo. Mais uma vez, o Brasil será chamado a escolher qual projeto político deseja para o país — e isso inclui, necessariamente, o projeto de banco público que os brasileiros querem. Tive a honra de liderar a resistência em defesa do banco como conselheira de administração eleita pelos empregados e, depois atuar,  como presidente, nareconstrução da Caixa no início do atual governo. O banco vinha de um histórico de crises institucionais e de confiança, mas, sob a liderança do presidente Lula, voltou a ser compreendido como instrumento estratégico do desenvolvimento nacional.

Ao completar 165 anos, a Caixa não precisa apenas de homenagens. Precisa de defesa ativa, de escolhas estratégicas corretas e de um pacto entre sociedade e governo para garantir sua plenitude, sustentabilidade e relevância futura.

Celebrar a Caixa é, também, assumir o compromisso de fortalecê-la — como patrimônio público, como instrumento de justiça social e como pilar de um projeto nacional de desenvolvimento. Defender a Caixa é defender o Brasil.

Rita Serrano – Ex-presidente da Caixa. Autora do livro Caixa, Banco dos brasileiros. Doutoranda em Administração. Presidente do DIAP – Departamento Intersindical de Assessoria