Por Rita Serrano

ArtigoICL0409O Banco Central rejeitou ontem (3) a proposta de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), encerrando uma negociação que vinha sendo analisada desde março deste ano. A operação previa a compra de participação, incluindo ações ordinárias e preferenciais, e já havia recebido aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). No entanto, o BC considerou a transação inadequada, frustrando os planos do BRB, que via na aquisição uma oportunidade estratégica para ampliar sua atuação no mercado financeiro.

Essa decisão do Banco Central ecoa um episódio anterior envolvendo a Caixa Asset, braço de gestão de ativos da Caixa. Em julho de 2024, gestores da área técnica da Asset, foram destituídos de seus cargos após emitirem parecer contrário à compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. O documento classificava a operação como “atípica” e “arriscada”, destacando o alto risco de solvência do Master e seu modelo de negócios pouco transparente.

A destituição dos gestores foi interpretada como retaliação por parte da cúpula da Caixa, gerando forte repercussão interna, na imprensa e denúncias de abuso de poder. Diante da crise, a Controladoria-Geral da União (CGU) anunciou uma auditoria inédita na Caixa Asset, com o objetivo de avaliar sua estrutura de governança, conformidade com regulamentos, padrões éticos e aderência às boas práticas de mercado.

A auditoria foi motivada não apenas pela operação controversa com o Banco Master, mas também pelas mais de 30 denúncias internas feitas por empregados da Asset durante o período da gestão de Pablo Costa Sarmento na presidência da empresa. Esses episódios revelam um padrão preocupante de pressão institucional sobre áreas técnicas que se opõem a operações de alto risco, colocando em xeque a integridade das decisões financeiras em instituições públicas.

A negativa do Banco Central à operação do BRB com o Banco Master reforça a legitimidade das preocupações levantadas anteriormente por técnicos da Caixa Asset — e expõe a necessidade urgente de fortalecer mecanismos de proteção a profissionais que atuam com responsabilidade e zelo pelo interesse público.

Destaque: até o momento a direção do banco não restituiu os cargos aos gestores, que somente cumpriram com seu dever.

Por fim, convém lembrar sobre a ingerência política de partidos da direita envolvendo a questão. Cientes da dificuldade técnica de aprovar a bilionária transação, setores da direita e do Centrão, estão fazendo pressão para aprovar no Congresso Nacional um mecanismo para que os parlamentares possam destituir diretores do BC.

É mais uma clara chantagem e prática de achaque desses grupos político-econômicos contra as instituições brasileiras. Diante dos últimos acontecimentos políticos a sociedade precisa estar atenta, forte e mobilizada, diariamente, contra toda e qualquer tentativa dessa natureza.

Rita Serrano é doutoranda em Administração e foi presidente da Caixa.Atuou como representante dos empregados no Conselho de Administração da instituição. Consultora DIAP. Palestrante.É autora de livros e artigos. Em 2023, foi eleita pela Bloomberg Línea como uma das mulheres mais influentes da América Latina.