O Saúde Caixa, plano de saúde dos(as) empregados(as) e aposentados(as) da Caixa, representa muito mais do que um benefício corporativo. É uma conquista histórica de empregados e entidades de representação, que simboliza proteção social, qualidade de vida e dignidade no trabalho. Eu, como empregada da Caixa, também sou usuária do plano — assim como meus beneficiários. Por isso, falo não apenas como defensora dessa política, mas também como alguém que depende diretamente dela. Essa identificação é compartilhada por milhares de colegas que, como eu, sabem que o Saúde Caixa é um patrimônio coletivo que precisa ser preservado.
No entanto, esse patrimônio está sob ameaça — e sua continuidade depende de decisões urgentes, responsáveis e comprometidas com o bem-estar de todos que dele dependem.
A origem da crise
Nos últimos anos, os custos do plano para os empregados aumentaram significativamente. Em 2018, a Resolução CGPAR 23, válida para todas as empresas estatais, impôs limites à participação das empresas no custeio dos planos de saúde. Pouco antes disso, a direção da Caixa e seu Conselho de Administração já haviam incorporado esses limites ao estatuto do banco.
Na época, como representante eleita dos empregados no Conselho e dirigente sindical, fui a única a votar contra. Argumentei que cláusulas trabalhistas não devem constar no estatuto de uma empresa, pois isso fere o direito à livre negociação. Infelizmente, mesmo com pressão das entidades para a revogação da medida, a decisão foi tomada, engessando direitos conquistados ao longo de décadas de mobilização.
Em 2023, já como presidenta da Caixa, determinei a elaboração de uma proposta para atualizar o estatuto, excluindo a cláusula que trata do teto de custeio do Saúde Caixa. O novo texto foi encaminhado ao Conselho de Administração após minha saída, em 2024. Contudo, o estatuto publicado em março de 2025 manteve o limite, frustrando expectativas de avanço.
O cenário da saúde suplementar
O debate sobre o teto de custeio permanece central, mas é preciso ampliar o olhar para os desafios enfrentados pelo sistema de saúde suplementar como um todo. A perenidade de planos como o Saúde Caixa está diretamente ligada a fatores estruturais que pressionam o setor:
- Concentração de mercado: poucas operadoras dominam o setor, dificultando negociações e elevando os preços.
- Aumento da expectativa de vida: mais demanda por atendimentos complexos e de longa duração.
- Novas tecnologias e medicamentos: avanços importantes, porém de alto custo.
- Uso frequente: beneficiários mais conscientes recorrem ao plano até para demandas simples.
- Fraudes e desperdícios: exames e procedimentos desnecessários.
- Inflação médica: reajustes sempre acima da inflação oficial.
Além disso, o Saúde Caixa enfrenta desafios internos como a redução do número de empregados ativos, judicializações que geram insegurança jurídica e uma governança centralizada, com pouca transparência e participação efetiva dos beneficiários.
Propostas para a sustentabilidade do Saúde Caixa
Sem renunciar à premissa básica de que a negociação com a direção do banco só será razoável se houver a retirada do teto de custeio imposto unilateralmente, é possível pensar em medidas estruturantes que promovam qualidade no atendimento com foco na prevenção e não na doença, uso consciente e sustentabilidade financeira. Algumas sugestões:
1. Implementação de Programa Médico da Família
Seria criado pelo Plano para atender os usuários, com foco na prevenção. Cuidado contínuo e integral, com redução de encaminhamentos desnecessários e menor custo assistencial.
2. Campanhas educativas permanentes – hábitos saudáveis e uso consciente do plano.
3. Programa de envelhecimento saudável – ações voltadas a aposentados e idosos.
4. Aplicativo preventivo – alertas, metas e acompanhamento de saúde.
5. Linhas de cuidado por perfil – com desenvolvimento de protocolos específicos para mulheres, homens, jovens, idosos e pessoas com deficiência.
6. Fortalecimento da governança participativa – é fundamental maior transparência e presença dos empregados na gestão e nas decisões estratégicas do plano.
7. Educação financeira em saúde - com a produção de materiais e oficinas com foco na conscientização, com objetivo de mostrar o impacto do uso do plano nos custos coletivos — incentivando a coparticipação consciente.
Um patrimônio a ser defendido
O Saúde Caixa não é apenas um plano de saúde. É um modelo de cuidado construído com luta, solidariedade e compromisso coletivo. Sua defesa é a defesa de um direito, de um padrão de atendimento e de um princípio básico: a dignidade de quem trabalha e construiu a história da Caixa.
*Rita Serrano é doutoranda em Administração e foi presidente da Caixa. Atuou como representante dos empregados no Conselho de Administração da instituição. É autora de livros e artigos. Em 2023, foi eleita pela Bloomberg Línea como uma das mulheres mais influentes da América Latina.