Do telex à inteligência artificial: qual o futuro dos bancários?
Rita Serrano
Em 35 anos como bancária, acompanhei de perto uma transformação extraordinária. Quando entrei na Caixa, em 1989, ainda convivíamos com telex, fichas de contas e processos essencialmente manuais. Quando assumi a presidência do banco, em 2023, um dos grandes desafios era ampliar os investimentos em tecnologia para que a instituição centenária pudesse competir com fintechs e bancos digitais. Entre esses dois momentos, não mudou apenas a tecnologia: mudou profundamente o trabalho bancário.
Dia 28 de agosto é Dia do Bancário e da Bancária, momento nos convida a celebrar as conquistas de uma categoria importante na história do país, mas também a olhar para o futuro. Afinal, o trabalho bancário está diminuindo ou sendo deslocado para fora da categoria bancária?
Os números mostram uma redução expressiva do emprego tradicional. Segundo estudo do DIEESE, com dados da RAIS e do Novo Caged, o número de trabalhadores da categoria bancária caiu de 504.345, em 2015, para 416.181, em 2025. São cerca de 88 mil postos a menos em uma década. A mudança aparece também na composição das ocupações: nos bancos privados, a participação dos profissionais de Tecnologia da Informação passou de 5% do emprego, em 2015, para uma estimativa de 14% em 2025. No sentido inverso, o número de caixas caiu de 41.520 para 19.545 — redução de 53%.
Essa transformação tem relação direta com a digitalização da atividade bancária. Em 2025, foram realizadas 240,8 bilhões de transações bancárias no Brasil; 83% ocorreram nos canais digitais e 78% somente pelo celular. Em cinco anos, as operações pelo mobile banking cresceram 169%, chegando a 187,5 bilhões de transações. A própria Febraban identifica hoje os canais digitais como o principal ponto de relacionamento financeiro e os canais físicos, cada vez mais, como espaços de apoio para operações de natureza consultiva.
O PIX acelerou ainda mais essa transformação. Mais de 170 milhões de pessoas físicas — cerca de 80% da população brasileira — já utilizaram o sistema, que registra mais de 7 bilhões de transações mensais. Operações que durante décadas exigiam a intervenção de caixas, escriturários ou estruturas administrativas passaram para as mãos dos próprios clientes, disponíveis no celular durante 24 horas.
Mas há outro movimento acontecendo paralelamente: a atividade financeira deixou de estar concentrada nos bancos tradicionais.
As cooperativas de crédito são talvez o exemplo mais evidente. O Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, com dados referentes a 31 de dezembro de 2025, registra 134.395 empregos no ramo crédito, distribuídos em 682 cooperativas. Em 2024 eram 121.825 empregos, o que representa crescimento de aproximadamente 10% em apenas um ano. As cooperativas reuniam ainda quase 23 milhões de cooperados e mais de 10,5 mil unidades de atendimento em 2025.
As fintechs ampliam ainda mais esse novo universo. Levantamento apresentado pelo DIEESE registra, em 2025, 356 fintechs reguladas pelo Banco Central, considerando instituições de pagamento, sociedades de crédito direto e sociedades de empréstimo entre pessoas, diante de 173 bancos. Essas empresas oferecem contas, cartões, empréstimos, financiamentos, investimentos e outros produtos antes fortemente associados à atividade bancária.
Assim, trabalhadores de empresas que desenvolvem serviços financeiros podem aparecer formalmente enquadrados em atividades de tecnologia da informação, administração de cartões, cobrança ou prestação de serviços. A fronteira entre o que é trabalho bancário, trabalho tecnológico e trabalho financeiro tornou-se muito menos nítida.
E essa transformação tende a se acelerar com a Inteligência Artificial.
Os bancos brasileiros projetam investimentos de R$ 50,4 bilhões em tecnologia em 2026, um crescimento de 58% em cinco anos. A tecnologia não muda apenas os canais pelos quais os clientes movimentam suas contas; muda também processos internos, análise de dados, prevenção a fraudes, concessão de crédito, atendimento e tomada de decisões.
A transformação já repercute nas qualificações profissionais. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, 226,1 mil profissionais foram treinados pelo setor bancário, e 42% dos bancos pesquisados pretendem ampliar suas equipes de TI, com crescimento médio previsto de 22%.
Portanto, a tecnologia não elimina apenas funções: também cria profissões e redefine outras. O problema central é saber quem terá acesso a essas oportunidades.
Nesse cenário, vejo pelo menos três grandes desafios para o futuro da categoria bancária.
O primeiro é a requalificação dos atuais trabalhadores. Bancários que acumularam durante anos conhecimento sobre clientes, crédito, produtos, riscos e funcionamento das instituições precisam ter acesso à formação necessária para trabalhar com as novas tecnologias. Inteligência Artificial, análise e interpretação de dados, segurança digital e novas ferramentas precisam fazer parte dos programas permanentes de formação. A transição tecnológica não pode significar simplesmente substituir trabalhadores experientes por novos profissionais.
Requalificar também significa reconhecer o valor das competências que a máquina não substitui facilmente: capacidade crítica, negociação, empatia, conhecimento das necessidades do cliente, ética, julgamento e compreensão da realidade econômica e social. A tecnologia deve ampliar a capacidade do trabalhador, e não apenas ser utilizada como instrumento de redução de pessoal.
O segundo desafio é a disputa pelos novos empregos. Se cresce a presença de profissionais de tecnologia dentro dos próprios bancos, essas ocupações também precisam ser vistas como parte do futuro da categoria. Desenvolvimento de sistemas, ciência de dados, inteligência artificial, cibersegurança e gestão de plataformas não podem ser considerados mundos inteiramente separados da atividade bancária quando são fundamentais para que o banco funcione.
A discussão, portanto, precisa envolver também terceirizações, criação de empresas de tecnologia dentro dos conglomerados financeiros e outras formas de organização empresarial que podem fragmentar uma mesma atividade entre trabalhadores submetidos a direitos e convenções coletivas diferentes.
O terceiro desafio talvez seja o mais complexo: a representação dos trabalhadores precisa acompanhar as novas fronteiras do sistema financeiro.
Bancos, cooperativas, fintechs, instituições de pagamento e empresas de cartões oferecem produtos cada vez mais semelhantes. O DIEESE identifica, somente em quatro segmentos relacionados à atividade financeira — crédito cooperativo, atividades auxiliares dos serviços financeiros, outras atividades de serviços financeiros e administração de cartões — mais de 220 mil vínculos de trabalho nas bases analisadas.
Isso nos obriga a fazer uma pergunta que talvez seja decisiva para os próximos anos: a representação dos trabalhadores continuará sendo definida apenas pelo tipo de empresa que assina a carteira de trabalho ou precisará considerar cada vez mais a natureza do trabalho realizado?
No Dia do Bancário e da bancária, defender a categoria não significa defender o banco, a agência ou o emprego como existiam há 30 anos. A história dessa categoria, aliás, sempre foi marcada pela capacidade de enfrentar mudanças — tecnológicas, econômicas e políticas.
O desafio agora é construir uma estratégia para uma nova transformação.
Se o trabalho bancário está mudando de lugar, de tecnologia e até de nome, a representação dos trabalhadores também terá de mudar. O futuro da categoria dependerá de sua capacidade de disputar a requalificação, os novos empregos e a representação de quem faz o sistema financeiro funcionar.
Rita Serrano – Presidenta do DIAP. Atuou no setor bancário por 35 anos, tendo chegado em 2023 a Presidência da Caixa. Foi também Presidente do Sindicato dos Bancários do ABC. Palestrante. Escritora. Doutoranda em Administração pela USCS.
Referências
DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Transformações no Sistema Financeiro Nacional e Desregulamentação na esfera do Emprego. Gustavo Cavarzan. Apresentação ao 7º Congresso da Contraf-CUT. Março de 2026. Dados provenientes, entre outras fontes, da RAIS, Novo Caged, Banco Central e IBGE.
FEBRABAN; DELOITTE. Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 – ano-base 2025. São Paulo: Federação Brasileira de Bancos, 2026. Dados sobre transações bancárias, canais digitais, investimentos em tecnologia, capacitação e emprego em TI.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Pix em números. Brasília, 2026. Estatísticas sobre usuários e utilização do sistema de pagamentos instantâneos.
SISTEMA OCB – ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS. Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026: Ramo Crédito. Ano-base 2025. Brasília: Sistema OCB, 2026. Dados de referência: 31 dez. 2025.
SISTEMA OCB – ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS. Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025: Ramo Crédito. Ano-base 2024. Brasília: Sistema OCB, 2025.